Hoje li uma frase tão boa. "Benfica, tu és demais para este país! Vem e imigra comigo daqui para fora".
Eu gostei do fundo da mensagem. De facto, tudo o que existe de muito bom em Portugal acaba por ser abafado, minimizado e por fim afundado, porque para os grandes se vira a inveja e o desprezo. Nada de aplausos, reconhecimento ou incentivos, apenas a vontade de exterminar aquilo que é melhor ou corra o risco de ver a ser bom. O Benfica é apenas uma metáfora. Às vezes também eu imigrava e levava comigo o que é bom, para onde lhe dessem valor. É por isto que quem imigra não volta... Porque o reconhecimento é um sentimento insubstituível.
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Cold days, warm heart
Com este frio sabem especialmente bem as minhas invenções diárias de aveia pela manhã. Não imaginam como um pouco de aveia com água e uma pitada de sal, tudo bem quentinho a fumegar, pode fazer um dia começar tão bem. As manhãs frias têm sido acalmadas assim, com aveia, maçã em doses generosas, por vezes também um pouco de banana, nozes picadinhas, uma boa camada de canela e um fio muito discreto de mel no fim a dar o toque de charme. É um começo de dia tão delicioso e aconchegante que dificilmente trocava por outro e muitas vezes penso que a combinação está à altura de um bom arroz doce. Fico feliz por explorar este tesouro nutricional há tantos meses e por formarmos uma dupla que está para durar.
A abrir o mês dos sonhos
Para este mês tão especial a única certeza que eu tinha desde o verão, e depois de não ter tido verão, era de que iria a Londres na quadra natalícia. Quanto mais o outono avançava, mais eu apurava esta certeza. Todos os anos anteriores o quis com todas as minhas forças, mas nunca foi possível. Este ano tinha tudo e organizei-me neste sentido. O projeto ia sempre bem, realizei a minha parte, terminei o meu curso e ficou a faltar a comemoração, fiz contas poupança a contar com isto e outras coisas que viesse a merecer. Em outubro disse à minha família que iria este mês, e pensei para mim própria que queria ir mesmo se fosse sozinha, tamanha a minha vontade. Mas eu não quero ir sozinha! Quero que seja perfeito. E agora vejo aos poucos o sonho fugir-me, lentamente, das mãos, por entre os dedos, novamente...
Weekend report
Passou-se mais um fim de semana acelerado, cheio e muito bom. Está sempre todo programadinho e com pouco de descanso mas gostei destes dois dias diferentes, que já não são a estudar (uuuuuufffffaaa). O primeiro dia foi totalmente dedicado a resolver os problemas da casa que se arrastam toda a semana, compras, arrumações, limpeza dentro dos possíveis e no fim da tarde recebi a minha prima, que continua a fazer a sua formação em Lisboa e a dormir aqui quando precisa. Ficou para jantar, estivemos a conviver até irmos dormir (dormir pouco, novamente muuuito pouco) e hoje de manhã bem cedo fui levá-la aos transportes. Ia jurar que por essa hora estavam graus negativos. Não foi caso para tanto, mas estava um frio cortante. Mesmo assim, fui dar um passeio junto ao rio depois de a ter deixado. Quando o Vasco da Gama abriu, às 9h, fui para lá com a intenção de dar uma voltinha e acabei por passar ali toda a manhã. Adorei cada loja, cada família a passar, alegre no contexto do Natal, cada música natalícia, cada montra iluminada, cada compra que fiz hoje. Trouxe os primeiros mini presentes do ano (um para ele, um para mim), mais umas coisinhas para a minha árvore que ainda não está montada, um CD de Natal, entre outras pequenas coisas que me fizeram feliz. Foi uma manhã totalmente inspiradora neste primeiro dia de dezembro.
Chegou este mês tão perfeito em tudo, tão especial e rico em emoções, e novamente não estou preparada para recebê-lo. Não vou ficar triste, vou sim tentar contrariar esta tendência e arranjar maneira de não perder todas as oportunidades como nos nos meus últimos sete dezembros. Por entre tostas e chás quentes e mantas, hoje de tarde estudei um pouco o que vai ser este mês, planeei algumas coisas, li as minhas novas revistas de receitas, tive umas novas ideias e agora entra uma semana importante. Tantas coisas para resolver numa semana tão pequena! Assim entramos neste pequeno dezembro, acelerados. Here we go!
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Giving thanks
Acabámos a manhã a almoçar no Portugália à beira Tejo, com frio e chuva mas foi mais um momento feliz. Tantos parabéns e telefonemas felizes que duraram até hoje. E sabe-se lá quem ainda mais telefona... Tem sido uma grande onda de boas energias.
No dia seguinte vieram os meus pais trazer parabéns a Lisboa, trazer mimos e prendas e flores e até a minha avó. Mais um fim de semana muito bom, mas extremamente cansativo, sem recuperar. Muitas emoções e a vida não pára. A semana continuou, com as boas sensações de sexta-feira, o trabalho para retomar e a defesa da minha irmã para preparar, tal como ajudaram com a minha.
Adoro todos os dias olhar para a minha planta-presente-de-final-de-curso :)
Ontem chegou a vez da minha irmã. Novamente unimo-nos de véspera para treinar muito mas desta vez éramos cinco. Fiz o prometido bolo de chocolate para inspirar a malta. Comemos à sobremesa com gelado de noz e tudo pareceu encaminhado. Voltámos a deitar-nos mais tarde que o previsto, eu não dormi sequer com toda a excitação e de manhã seguimos para mais uma prova. Ela fez-se mestre, voltámos cá para casa e ficámos toda a manhã a fazer tempo até irmos almoçar juntos. Comemorações terminadas, ontem sentia que tinha sido uma semana de festa, quando na verdade tinha sido mais uma semana de trabalho e trabalho em dose dupla que decidimos transformar em festa porque simplesmente estávamos juntos. O nosso irmão veio cá dormir para as duas teses porque quis fazer parte do momento e só isso já é sinal de união e... festa. Por maiores que sejam os nervosismos.
No véspera da defesa da minha irmã, ainda soube que subi de categoria na carreira Oriflame e reconquistei a minha posição de chefe distrital, que tinha perdido ao iniciar este mestrado.
Ontem à noite, depois de tantos dias emocionantes e em corrida e numa nova realidade recente, senti-me totalmente integrada no espírito thanksgiving. Feliz por ter corrido tudo bem, por ter concretizado objetivos e ter uns quantos bem desafiantes pela frente, e para enfrentar já (na verdade, são para ontem!). Hoje fechei bem o ciclo desta semana com um jantar bem feliz, a falar do que foi bom nesta semana e a lembrar os pontos positivos, que na minha cabeça posso considerar que foi o meu thanksgiving tuga. Penso que tenho andado emocionalmente oscilante e nada melhor que um conjunto de pães de alho, sumo natural, hambúrgueres e uma grande taça de gelado a dois para terminar com tudo o que é carências.
As emoções terminaram e agora vou estabilizar, mas gostava que esta boa sensação durasse para sempre. Como não dura, tenho de procurar novas conquistas e sentir novamente as borboletas da realização. É este o ciclo, let's keepin it movin.
Good days
Têm sido dias muito cheios, atarefados, cansativos. Cheios de compromissos, a receber pessoas em casa (não por opção, e assim vai continuar), e sempre em vésperas de outros ainda mais importantes. Mais ainda, sempre a programar a semana decisiva que começa na segunda-feira (ou mais propriamente no dia de trabalho que vai ser o domingo). Mas quando estes dias cheios chegam ao fim, é muito, muito bom. E tem sido assim: acelerado, mas bom. Se há uma semana atrás estava com uma carga de nervos prestes a ir defender o meu trabalho final de mestrado, agora sei que nessa manhã saí daquela sala para entrar numa nova fase cheia de coisas boas.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Thanksgiving Day
Tenho o grande sonho de vir a festejar o Thanksgiving americano. Este dia é tão ou mais importante para eles quanto o Natal, pelo que simboliza. Reune-se a família para celebrar as tradições próprias do dia e agradecer tudo o que têm de bom nas suas vidas. No meio de tartes de batata doce, queijadas de abóbora, bons vinhos e o perú, passam um dia tão cheio e esperado que é preparado com antecedência e muita expectativa. Adoro dias simbólicos e que obriguem a família a juntar-se, e seria muito feliz a experimentar um dia esta tradição americana. Em último caso posso sempre importá-la, que não é nada que ainda não me tenha ocorrido. Talvez no próximo ano, se achar que faz sentido. De qualquer forma, e mesmo sabendo que não é uma tradição nossa, happy thanksgiving everyone ❤
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Baking day
Já fiz muitas sobremesas nesta vida, mas em bolos sou ainda uma principiante. Os que experimentei foram saindo bem. Do último que fiz todos gostámos muito. Mas hoje estou a preparar-me para me estrear num clássico: o bolo de chocolate. Sou cada vez mais amante de chocolate, e ele faz tãooo bem. Além disso, bolo de chocolate é algo tão bom que penso sempre em guardar para alguma ocasião especial e acabo por nunca o fazer e nem o comer em lado nenhum por não me dar a esse direito. Hoje chegou o dia. Vamos ajudar a minha irmã a preparar-se para defender a tese dela amanhã bem cedo, e tal como há uma semana ela me trouxe uma caixa de bolos para me inspirar e me acalmar os nervos, hoje quando entrar na minha casa vai cheirar a bolo. Hmmmmmm. E que ele me saia bem, para correr bem a festa. Pois, é que hoje é dia de treinos e ela vem apresentar o trabalho para nós, mas de seguida juntamo-nos todos aqui a lanchar/jantar para ela relaxar e assim se passa a véspera, bem mais divertida que o isolamento da preparação. Comigo foi assim e foi tão bom ter companhia. Amanhã retribuo a ajudinha e já sabemos que o chocolate é o melhor amigo dos nervos... E o melhor amigo de tudo no geral! :)
terça-feira, 26 de novembro de 2013
As piores fases da vida, e recordar a pior fase da minha
Foi ao ver esta avó tão triste e aflita, esta manhã nos programas da manhã (que meto a dar enquanto trabalho em casa) que revivi alguns episódios da minha adolescência. Esta avó não sabia mais o que fazer para ajudar a neta, que com os dentes decadentes, feios, partidos e já quase totalmente desdentada à frente, não conseguia sair de casa. A neta de 17 anos deixou de ir à escola porque não conseguia enfrentar os colegas com aquele sorriso (quem sabe o que era gozada pela boca que tinha?) e além de deixar a escola passou todo o verão fechada em casa, sem conseguir sair ou conviver por causa da vergonha da própria boca. A avó estava desesperada porque não aguentava ver a neta a não viver a sua vida, a privar-se de tudo o que é próprio da idade por não se sentir bem consigo. Apesar das doenças e da idade, tinha passado os últimos tempos a ir a pé às instituições, à câmara municipal, às revistas, aos programas de televisão, a pedir ajuda para poder pagar umas próteses dentárias à neta, mas nada, até aparecer o Goucha e seu programa, que levaram a rapariga às clínicas do costume fazer implantes em toda a boca, com um final muito feliz.
Ora o meu caso... Bem, eu na minha adolescência tinha (e tenho, atenção) dentes, não tinha problemas, tinha tudo mais ou menos no sítio, mas achava-me gorda. Tremendamente gorda e um bocado feia. Quanto mais os anos passavam, mais diminuía a minha autoestima. Comecei a esconder-me na roupa, a ter menos vontade de sair com quem quer que fosse, a deixar de comer sem ninguém perceber, a sentir-me desconfortável comigo em todas as situações desta vida. Quanto mais drásticas se tornavam estas medidas (houve um largo período em que ficava em jejum até ao jantar, refeição a que não podia escapar porque a tomava em família), mais eu começava de facto a engordar, e a desesperar, porque os meus métodos desesperados estavam a ter o efeito contrário. Já não queria comprar roupas, não queria conhecer pessoas porque achava que ia ser uma desilusão, deixei de ir definivamente à praia. Quanto mais deixava de fazer estas coisas tão normais, mais dificilmente me imaginava a vir a retomar uma vida normal, estava desesperada a ver uma situação sem retorno, e uma situação que me fazia tão, mas tão infeliz. Isto durou anos, durou toda a minha adolescência, sem verões, sem biquinis, sem namoricos, sem as aventuras maravilhosas que via os meus amigos viver férias após férias, todos juntos. Foi terrível, anos de choro e infelicidade pura, isolamento e solidão. Perguntava-me como os meus pais podiam não ajudar-me, estando eu tão desesperada, mas numa certa altura comecei a achar que seria normal. Agora olho para trás e não, não era normal. Eu sofri em silêncio, passei anos sozinha, estava revoltada e em casa, estava em agonia. Eu abdiquei da minha vida até aos 19 anos de idade.
Eu não era gorda, coisa nenhuma. Era uma magra e bem feita que começou a ver uns pontinhos de celulite com a entrada na adolescência, entrou em pânico e ninguém soube tranquilizá-la, ninguém, até que tudo teve um efeito bola de neve. Refugiei-me nas notas da escola, a única coisa que não necessitava de exposição pública ou autoestima. Mesmo assim, não me apetecia nem tinha forças para estudar (não comer não ajudava). Nas aulas também não queria falar, e os professores chamavam os meus pais para lhes dizer que não me dariam as notas que eu merecia porque eu não participava, e a participação nas aulas também faz parte da nota final. Nunca hei-de esquecer esta porcaria de método. Adiante.
Os meus pais não foram ao fundo da questão, para eles eu era envergonhada, só porque eles o são. Para eles eu não ia à praia porque estava a ter uma pancada de adolescente, que coisa tão normal, uma rapariga ficar em casa, no escuro e de roupa (calças) durante uns seis verões seguidos. Note-se que até aos vinte anos vivi a 5 minutos da praia, sou de lá, e ninguém que more ali passa um dia sem a praia e sem os amigos. Isto agrava as coisas? Não podem imaginar o quanto, o ridículo que foi, os momentos felizes que perdi, a infelicidade que nos consome e nos suga a alma e as forças e apesar disso não conseguirmos sair daquilo, é uma prisão inexplicável. E mesmo assim, nunca ninguém me soube dizer-me és bonita ou preocupar-se devidamente com o que eu estava a enfrentar sozinha.
Aqui entra finalmente a minha avó. A única pessoa que se esforçou realmente por me mostrar como eu estava errada. A única que se afligia muito com o que eu estava a fazer a mim própria. A única que sabia o que eu estava a perder, do que estava a abdicar e dos anos que estava a perder e que não voltariam. Nunca voltaram, nunca vão voltar... Mas naquela altura eu não conseguia perceber isso, estava a sofrer, a sofrer, não conseguia libertar-me daquilo... Estava cada vez mais desesperada, e via a minha avó a ficar também e a sofrer por mim. Ela não tem dinheiro, mas começou a juntar para eu ir para um ginásio local. Pedia às minhas primas mais velhas para me ajudarem e me tirarem de casa. Empurrava-me para sair à noite com as minhas amigas e eu ia, e fazia-me tão bem, ganhava anos de vida à noite. Explicava-me como aquilo era uma fase e como as minhas amigas não eram melhores que eu. Explicava-me como eu era mil vezes mais bonita que as minhas amigas, e como era inteligente. Basicamente, provava a cada dia todo o amor que tinha por mim e vou agradecer-lhe para sempre os ensinamentos que guardei.
Já agora, e só por curiosidade, conto o ponto de viragem desta história.
Certo dia, na escola secundária, parou à porta o carro da Elite Model Look, agência de modelos que estava a fazer recrutamento de novos talentos em todas as escolas do país. Eu sabia disso perfeitamente, na altura já tinha uma obsessão por moda e nessa idade tinha sobretudo por modelos e sonhava ser modelo. Já comprava revistas de moda, via sites de modelos, acompanhava os concursos. Eu era das únicas raparigas da escola com altura suficiente (mais que suficiente) para ser recrutada e eles passaram por mim e nem olharam. Claro que não, eu tinha engordado, tinha roupas feias, óculos, um ar de quem tinha desistido de si própria. E tinha. Naquele momento chorei no meio da escola, estava infeliz e vazia por dentro, a olhar para trás e a perceber que se não fosse a minha parvoíce durante esses anos todos eu não tinha engordado e continuava magra como no início da minha crise (SIM porque inconscientemente eu sempre soube que era magra, tal como as anoréticas se veem ao espelho em pele e osso mas continuam a achar-se gordas(?)... simplesmente não há uma explicação). Eu aí não era gorda, mas já não tinha com certeza as medidas para ser modelo. Nesse dia não fui mais às aulas, saí da escola para o autocarro e ir para casa. Quando vi o carro da agência à porta da escola, tão lindo e a representar o passaporte para um mundo novo (a moda), chorei e chorei ainda mais, até chegar a casa. Cheguei num pranto, a minha mãe ficou preocupada e tão triste por mim. Não sei se foi por pena, mas nesse dia ficou decidida a levar-me a um nutricionista e foi essa a viragem. Não uma viragem de peso, porque só perdi os 5kg que tinha a mais, mas a mudança mental. Aos poucos, e com muito esforço, consegui superar-me até ao que sou hoje, uma pessoa quase normal (tenho algumas reservas ainda em relação a estar de biquini, mesmo com as medidas da Cláudia Vieira).
Aprendi muito sobre mim, sobre a adolescência, sobre como lidar com os filhos que venha a ter, aprendi quem gostava de mim de verdade, os amigos que se esforçaram por me ajudar e os que se afastaram. Aprendi que às vezes se passa por fases difíceis e impossíveis de explicar e incompreensíveis pelos outros, mas elas existem. E alguém está a perder a vida por isso.
Hoje fiquei contente por ver alguém a dar de volta a vida àquela rapariga que não tinha dentes, e sobretudo a tirar o aperto do peito daquela avó que já só chorava. Mas não deixo de pensar onde raio estavam os pais daquela rapariga. Ou onde estiveram os meus naqueles anos todos...
Ora o meu caso... Bem, eu na minha adolescência tinha (e tenho, atenção) dentes, não tinha problemas, tinha tudo mais ou menos no sítio, mas achava-me gorda. Tremendamente gorda e um bocado feia. Quanto mais os anos passavam, mais diminuía a minha autoestima. Comecei a esconder-me na roupa, a ter menos vontade de sair com quem quer que fosse, a deixar de comer sem ninguém perceber, a sentir-me desconfortável comigo em todas as situações desta vida. Quanto mais drásticas se tornavam estas medidas (houve um largo período em que ficava em jejum até ao jantar, refeição a que não podia escapar porque a tomava em família), mais eu começava de facto a engordar, e a desesperar, porque os meus métodos desesperados estavam a ter o efeito contrário. Já não queria comprar roupas, não queria conhecer pessoas porque achava que ia ser uma desilusão, deixei de ir definivamente à praia. Quanto mais deixava de fazer estas coisas tão normais, mais dificilmente me imaginava a vir a retomar uma vida normal, estava desesperada a ver uma situação sem retorno, e uma situação que me fazia tão, mas tão infeliz. Isto durou anos, durou toda a minha adolescência, sem verões, sem biquinis, sem namoricos, sem as aventuras maravilhosas que via os meus amigos viver férias após férias, todos juntos. Foi terrível, anos de choro e infelicidade pura, isolamento e solidão. Perguntava-me como os meus pais podiam não ajudar-me, estando eu tão desesperada, mas numa certa altura comecei a achar que seria normal. Agora olho para trás e não, não era normal. Eu sofri em silêncio, passei anos sozinha, estava revoltada e em casa, estava em agonia. Eu abdiquei da minha vida até aos 19 anos de idade.
Eu não era gorda, coisa nenhuma. Era uma magra e bem feita que começou a ver uns pontinhos de celulite com a entrada na adolescência, entrou em pânico e ninguém soube tranquilizá-la, ninguém, até que tudo teve um efeito bola de neve. Refugiei-me nas notas da escola, a única coisa que não necessitava de exposição pública ou autoestima. Mesmo assim, não me apetecia nem tinha forças para estudar (não comer não ajudava). Nas aulas também não queria falar, e os professores chamavam os meus pais para lhes dizer que não me dariam as notas que eu merecia porque eu não participava, e a participação nas aulas também faz parte da nota final. Nunca hei-de esquecer esta porcaria de método. Adiante.
Os meus pais não foram ao fundo da questão, para eles eu era envergonhada, só porque eles o são. Para eles eu não ia à praia porque estava a ter uma pancada de adolescente, que coisa tão normal, uma rapariga ficar em casa, no escuro e de roupa (calças) durante uns seis verões seguidos. Note-se que até aos vinte anos vivi a 5 minutos da praia, sou de lá, e ninguém que more ali passa um dia sem a praia e sem os amigos. Isto agrava as coisas? Não podem imaginar o quanto, o ridículo que foi, os momentos felizes que perdi, a infelicidade que nos consome e nos suga a alma e as forças e apesar disso não conseguirmos sair daquilo, é uma prisão inexplicável. E mesmo assim, nunca ninguém me soube dizer-me és bonita ou preocupar-se devidamente com o que eu estava a enfrentar sozinha.
Aqui entra finalmente a minha avó. A única pessoa que se esforçou realmente por me mostrar como eu estava errada. A única que se afligia muito com o que eu estava a fazer a mim própria. A única que sabia o que eu estava a perder, do que estava a abdicar e dos anos que estava a perder e que não voltariam. Nunca voltaram, nunca vão voltar... Mas naquela altura eu não conseguia perceber isso, estava a sofrer, a sofrer, não conseguia libertar-me daquilo... Estava cada vez mais desesperada, e via a minha avó a ficar também e a sofrer por mim. Ela não tem dinheiro, mas começou a juntar para eu ir para um ginásio local. Pedia às minhas primas mais velhas para me ajudarem e me tirarem de casa. Empurrava-me para sair à noite com as minhas amigas e eu ia, e fazia-me tão bem, ganhava anos de vida à noite. Explicava-me como aquilo era uma fase e como as minhas amigas não eram melhores que eu. Explicava-me como eu era mil vezes mais bonita que as minhas amigas, e como era inteligente. Basicamente, provava a cada dia todo o amor que tinha por mim e vou agradecer-lhe para sempre os ensinamentos que guardei.
Já agora, e só por curiosidade, conto o ponto de viragem desta história.
Certo dia, na escola secundária, parou à porta o carro da Elite Model Look, agência de modelos que estava a fazer recrutamento de novos talentos em todas as escolas do país. Eu sabia disso perfeitamente, na altura já tinha uma obsessão por moda e nessa idade tinha sobretudo por modelos e sonhava ser modelo. Já comprava revistas de moda, via sites de modelos, acompanhava os concursos. Eu era das únicas raparigas da escola com altura suficiente (mais que suficiente) para ser recrutada e eles passaram por mim e nem olharam. Claro que não, eu tinha engordado, tinha roupas feias, óculos, um ar de quem tinha desistido de si própria. E tinha. Naquele momento chorei no meio da escola, estava infeliz e vazia por dentro, a olhar para trás e a perceber que se não fosse a minha parvoíce durante esses anos todos eu não tinha engordado e continuava magra como no início da minha crise (SIM porque inconscientemente eu sempre soube que era magra, tal como as anoréticas se veem ao espelho em pele e osso mas continuam a achar-se gordas(?)... simplesmente não há uma explicação). Eu aí não era gorda, mas já não tinha com certeza as medidas para ser modelo. Nesse dia não fui mais às aulas, saí da escola para o autocarro e ir para casa. Quando vi o carro da agência à porta da escola, tão lindo e a representar o passaporte para um mundo novo (a moda), chorei e chorei ainda mais, até chegar a casa. Cheguei num pranto, a minha mãe ficou preocupada e tão triste por mim. Não sei se foi por pena, mas nesse dia ficou decidida a levar-me a um nutricionista e foi essa a viragem. Não uma viragem de peso, porque só perdi os 5kg que tinha a mais, mas a mudança mental. Aos poucos, e com muito esforço, consegui superar-me até ao que sou hoje, uma pessoa quase normal (tenho algumas reservas ainda em relação a estar de biquini, mesmo com as medidas da Cláudia Vieira).
Aprendi muito sobre mim, sobre a adolescência, sobre como lidar com os filhos que venha a ter, aprendi quem gostava de mim de verdade, os amigos que se esforçaram por me ajudar e os que se afastaram. Aprendi que às vezes se passa por fases difíceis e impossíveis de explicar e incompreensíveis pelos outros, mas elas existem. E alguém está a perder a vida por isso.
Hoje fiquei contente por ver alguém a dar de volta a vida àquela rapariga que não tinha dentes, e sobretudo a tirar o aperto do peito daquela avó que já só chorava. Mas não deixo de pensar onde raio estavam os pais daquela rapariga. Ou onde estiveram os meus naqueles anos todos...
domingo, 24 de novembro de 2013
Coisas boas
Estes dois dias foram de beliscar-me. Depois de vinte anos de estudante, de repente deixar essa rotina é a coisa mais estranha. Foi o primeiro fim de semana e só sei que senti uma liberdade imensa, parecem estar abertas novas possibilidades, senti que estava de férias. Não que não tivesse nada para fazer, mas sai um peso enorme de cima.
Não foram dois dias sem fazer nada. Foram arrumações. Foram os meus pais e avó a vir almoçar ontem, a trazer mimos e parabéns. Foram embora já de noite, foram compras para a casa. Foi o benfica, sem pesos de consciência. Foram revistas à noite. Hoje até deu para experimentar uma nova receita ao almoço e umas invenções ao jantar e não sobra para organizar tudo o que quero, ou para ir dar uma volta onde gostava, mas lá chegaremos com o tempo. Hoje foi sobretudo calmo... Para amanhã retomar o trabalho. Mas desta vez, e pela primeira vez, só trabalho. Não sei como será, mas só pode ser melhor.
Uma grande semana a todos. A minha já está cheia, cheia, cheia. E com coisas boas no meio :) valeu mesmo a pena todo o esforço.
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