terça-feira, 4 de agosto de 2015

Nutricionistas de Bancada (*)

 

Há quase duas semanas, quando (re)começámos a fazer dieta, tive de contar às médicas que me acompanham (até porque estão sempre a perguntar quando começo a fazer exercício e a perguntar se ando a comer bem, a avisar que tenho muita retenção de líquidos, que os meus intestinos deviam funcinar melhor, etc. Enfim, a chamar-me de gorda!). Avisei, muito feliz, que finalmente comecei uma dieta saudável e que queria perder seis quilos, parar só quando estivesse magra. Ficaram ambas muito contentes, mas a primeira coisa que perguntam logo é, inevitavelmente, como é a dieta que vou então fazer. Sinto logo a pressão... Aviso que acima de tudo vai ser saudável, muitas doses de legumes em todas as refeições, pouquinhos hidratos de carbono e sem hidratos a partir das 18h, 1.5l de mínimo de água e chás por dia e ainda tentar contornar tudo o que é aditivos, comida processada, glúten e lactose, mas incluindo iogurtes. Elas avisam sempre "cuidado também com a fruta e não esquecer a atividade física diária". Está bem, tudo bem! Mas a partir daí perguntam sempre muito sobre a dieta, se estou a cumprir, se estou a exercitar, o que ando a comer... A primeira coisa que me ocorre é que estão mesmo a chamar-me de gorda e assim que olham para a minha barriga lembram-se de perguntar se estou mesmo a fazer dieta porque não veem resultados. Mas as dietas saudáveis levam tempo... Muito tempo mesmo. Exigem muito compromisso, disciplina, força, resiliência e dedicação - como em tudo na vida que requer grandes resultados.

Acho que hoje em dia se pergunta muito sobre as dietas das pessoas, não para ajudar ou por curiosidade, mas muito mais para julgar. Porque toda a gente tem a sua opinião, porque toda a gente já leu artigos do Sapo e da revista Maria e todos a partir daí são especialistas. Porque a cada mês saem dezenas de publicações sobre a alimentação saudável e já nem é só no verão, é o ano inteiro. E cada pessoa lê coisas diferentes; e cada pessoa forma opiniões diferentes. Pior: cada pessoa forma certezas diferentes. E é com isto que temos de lidar hoje em dia... Quando uma pessoa nos pergunta sobre a nossa dieta ou o que andamos a comer, eu acho sempre que já tem o julgamento na ponta da língua e sinto de imediato que só estou a ser avaliada. Diga o que disser, vai haver sempre algum problema que ela tem a certeza que existe e que faria melhor que eu e não vai com toda a certeza guardar para si. Se beber leite, é porque o leite faz cancro; se beber chá, ele tem de ser bio ou está cheio de pesticidas; se beber leite de soja, é processado; se como ovos, aumento o colesterol; se comer pão, vou inchar, engordar e ainda vou sofrer de alzheimer; se comer cereais, tem açúcar e não emagreço; se comer fruta, tem muitas calorias e ainda é viciante; se comer bolachas, têm muita gordura; se comer queijos, tem lactose; gelatina light é totalmente artificial, faz mal; iogurtes magros também e além disso os laticínios não emagrecem... Por aí fora.

Felizmente, algumas pessoas (mas muito pouquinhas, cuidado) não são assim e só querem ajudar! Logo no primeiro dia da minha dieta tive uma sessão de Tui Na e mal me deito fui logo alvo de questões sobre a minha nova dieta (primeiro pensamento: foi porque acabou de ver a celulite do meu rabo?! só pode!) e eu vou respondendo... Segue-se logo "então e o que comeu hoje ao pequeno-almoço?". A primeira coisa que penso é que, diga eu o que disser, vou de certeza ser alvo de crítica! Seja o que for que coma! Tudo poderia ser melhor, sempre, porque quem pergunta faria sempre qualquer coisa melhor. Então foi fácil, respondi a verdade, para quê inventar se ia ser criticada na mesma? "Hoje comi um iogurte natural magro com duas colheres de aveia ao natural, sementes de abóbora e duas nozes, misturados com uma pêra bio da árvore dos meus pais e um bom banho de canela por cima. Para o meu namorado fiz um ovo mexido com fiambre de perú, pêra, nozes e meia bolinha de alfarroba a acompanhar. No fim, chá verde para os dois." Quando parei, ela tirou as mãos de cima de mim e exclamou "Sim senhora! Mas que bem, perfeito! Parece uma especialista no assunto... E o seu namorado tem muita sorte, que luxo!" e eu na altura muito orgulhosa por não ter dado uma única chance de ser corrigida, ou então por ela estar mesmo de boa vontade. Lembro-me perfeitamente de fazer esta descrição, apesar de fazer já há duas semanas, porque no início comecei com receio mas a meio já estava toda convicta e a pensar "bolas, ninguém é mais consciente daquilo que come do que eu, que estudo o assunto há tantos anos, por que raio hei-de estar preocupada a dar justificações? estou de consciência tranquila e só eu sei o que é o melhor para mim" e é mesmo assim, ter a consciência de que quem criticar é porque não percebe. Ou porque gostava de perceber ou porque só quer ter algo a dizer ou porque leu mesmo qualquer coisa em qualquer lado mas daquelas que ao mesmo tempo estão a ser desmentidas noutro lado qualquer... É preciso ter cuidado com os conselhos que nos dão, porque hoje em dia os "conhecimentos" de cada um são adquiridos de fontes estranhas, não dá para saber bem em quem confiar (é triste para quem é realmente especialista) e não temos de sentir-nos mal a cada passo que damos, porque a cada um vai haver alguém "melhor que nós" a apontar-nos o dedo. É deixá-los ser felizes assim... Ignorando as opiniões e seguindo em frente a perceber a fundo aquilo que nos faz melhor, viver com equilíbrio e tirar o maior prazer disso.


(*) O título não é tanto para os nossos médicos e profissionais de saúde, é sobretudo para quem nos rodeia todos os dias, família, amigos e, pior ainda, os colegas e conhecidos.

2 comentários:

Jessy Silva disse...

Estás num excelente caminho, acredita :))

Green disse...

A meu ver, o mais importante é que te sintas bem contigo mesma, o resto, não interessa para nada :)