sexta-feira, 24 de julho de 2015

Marcas

Foi uma semana mesmo triste. Estava eu no domingo bem cedo já preparada para um dia super produtivo, de mochila e cadernos às costas na rua para evoluir os meus projetos e ideias, quando recebo a triste notícia – tinha perdido a minha tia. E todo o dia perdeu o sentido, fiquei à toa, só à noite consegui assimilar melhor o que se passava e só aí percebi que passei o dia sem fazer nada, sem pensar muito, com um nó no peito, noutra dimensão. Longe do sítio onde tudo se estava a passar, era difícil de acreditar que era mesmo verdade. O cancro já a consumia há muito mas ainda assim... A minha tia de repente já não existia? A minha visita ao hospital tinha mesmo sido a nossa última conversa? Não era possível...
Já passaram alguns dias e não esperava vir escrever nada sobre o assunto mas a verdade é que se penso nisso todo o dia, então merece mais alguma atenção. O funeral foi na segunda-feira mas não é com certeza suposto eu deixar de estar triste. É para isso que há um período de luto, para que as pessoas tenham tempo de assimilar e de se recompor. Assimilar está difícil, recompor sei que é um processo natural... Mas como não vamos mais estar com ela? Como é que deixou de existir aquela voz, aqueles olhos tão lindos, aquele sorriso maroto, aquela alegria um pouco louca e incontrolável? Com ela se foram centenas de letras de músicas decoradas apaixonadamente, poemas, histórias e memórias bem guardadas. A minha outra tia (sua irmã), que não tinha qualquer colo para chorar esta grande perda, agarrou-se ao meu a perguntar “e agora, como vamos viver sem as parvoeiras dela?” enquanto lhe fazia festinhas no pouquinho cabelo que lhe restava, contando-me “ainda ontem me dizia que andava a pensar como ia fazer, porque agora quando voltasse a crescer o cabelo, se estivesse cansada como ia a pé para o cabeleireiro?”. Foi tão difícil...

É difícil, mesmo difícil digerir a perda de uma pessoa de quem tanto gostamos, de quem toda a gente gosta e que tinha ainda tanta vida, ideias e coisas para fazer. Nunca sequer chegamos a despedir-nos, porque pensamos sempre que ainda vão existir um monte de vezes juntos. Felizmente, aproveitei bem a última vez que estivemos juntas, três horas só as duas. Recordámos uma série de episódios de quando eu era pequenina, contei-lhe as coisas de que me lembrava, as noites que ficava lá em casa ao fim de semana, as sopinhas de leite bem doces que me preparava pela manhã, as missas todos os domingos e procissões a que me levava nas alturas de festa, as sestas no chão da loja dela, o pãozinho de leite com manteiga que eu tinha à minha espera quando acordava (tãoooo bommmm – especialmente vindo de alguém que não os podia comprar, mas fazia-o só para mim) os convites para almoçar feijão frade com ovos lá na loja quando eu já andava na escola secundária! E eu ia toda contente... Contou-me as dificuldades por que passou quando era nova e como foi sempre feliz com tão pouco, que é impossível compreender como as pessoas não sabem ser felizes com o que têm, mesmo que estejam a trabalhar para ter mais. Adorei ouvir tantas histórias durante horas e hoje fico contente por nesse dia (há mais de um mês no IPO) lhe ter dado tantos beijinhos, festinhas e abracinhos (mesmo só sentindo ossos, dava com a maior força possível). Vi-a beber chá depois de vários dias sem comer nada, estava com uma felicidade tão grande por causa daquele copo de chá de camomila que só tornou todos os meus problemas ridículos. Chorei muito antes de entrar naquele quarto para acordá-la e chorei mais quando saí, mas confiante de que aquele chá seria o recuperar daquela fase e que os tratamentos iam dar-nos mais tempo... Mas não, sem eu saber, aquela tinha sido mesmo a última vez. E eu que podia ter telefonado mais vezes, que podia ter ido visitar mais vezes... Fiquei a dever-lhe uma visita lá a casa desde que nos convidou para ir lá almoçar e prometemos que sim... Acho que está tudo trocado nesta vida. As prioridades, as noções, os timmings, tudo. Está tudo tão trocado que os mais iluminados já estão a fazer-nos voltar às origens (é a vantagem do caos extremo do caos total, é que explode tudo e volta-se ao início) e as técnicas de meditação e mindfulness, assim como as grandes viagens, estão muito em foco hoje em dia e a ser agarradas pela maioria das pessoas, como técnica para estarmos mais atentos, mais presentes, conscientes do que nos rodeia, a viver o que temos e não distraídos com os acessórios e com o futuro, pararmos para respirar em vez de levarmos todos os segundos a correr! Vida ridícula que não é viver!

A minha tia esteve muito presente na minha vida (até eu me afastar mais, como estou atualmente) e aconteça o que acontecer vou sempre recordá-la como uma pessoa espetacular e com quem me identifiquei sempre muito. Desde as minhas doenças – ambas sofremos sempre de amigdalite desde crianças devido à ansiedade pelos eventos felizes e em família, como o Natal, casamentos e todo o tipo de festas. As duas sofremos sempre de excesso de entusiasmo, alegria e muito pouco medo do ridículo. É óbvio que também fico atualmente a temer por esta herança genética das doenças dela mas também não estou de braços cruzados... Outra semelhança era o medo que ela tinha da morte, por esse motivo nunca andou de avião ou de barco, tinha medo de florestas, de trovões e até de foguetes... Até que esteve entre a vida e a morte, há muitos anos, com uma encefalite, e desde que sobreviveu ilesa nunca mais teve esses medos e agradeceu cada dia. Eu tento ser racional, mas sou muito parecida nesses medos todos. Era louca pelo pão doce da festa, especialmente na versão “pão-de-deus gigante”, adorava um bom bolinho e esperava todo o ano pelas azevias e coscorões do Natal. Tudo bem docinho... Na minha adolescência dizia-me sempre para eu comer um bolinho, quando eu me achava tão gorda (sem ser) e me privava de tudo o que mais gostava “oh filha, o que faz mal são esses sacos de gomas e pacotes de batatas que eu vejo os jovens aqui na rua a comer... um bolinho de vez em quando não faz mal a ninguém :)” e eu só pensava nisso enquanto comia o meu mil folhas este domingo, dia em que recebi a triste notícia, mesmo com um nó no estômago, pensava que me ia fazer bem a dose de açúcar. Mas comer isso enquanto estava o Marco Paulo na TV (ainda por cima a falar do seu cancro)? Só me lembrava, enquanto comia, de todas as letras dele que cantávamos juntas... Músicas tão pirosas mas que cantávamos em looping nos passeios e nos encontros de família. Outra coisa em comum: a nossa capacidade inacreditável de decorar músicas sem querer e sem as esquecer nunca, nunca! E rirmo-nos muito de nós próprias, sempre.

Sei que nos próximos tempos vai continuar a ser assim, tudo a lembrar-me dela... Todas as memórias a aparecer, muita tristeza a atravessar-se, do nada, nos meus dias, mas é assim que funciona e só tenho de tentar adaptar-me... Mas que não é fácil, não é. Vou-me focando em dar força à minha avó da forma que me for possível, porque acabou de perder uma filha e está tão sozinha naquele sofrimento. De resto, vai sempre custar-me estar a celebrar a vida sem que ela esteja presente, como se ela nunca tivesse existido. Não acredito que a vida seja resumida a isto: no fim desaparecemos e tornamo-nos numa memória, boa ou má, como se nunca tivéssemos existido, e a vida dos outros continua. A vida é o fenómeno mais estranho do mundo, confusa, intrigante, sem respostas. Resta-nos mesmo fazer valer cada segundo, porque todos contam e porque isto tudo passa demasiado rápido.

1 comentário:

Green disse...

Lamento imenso o que aconteceu, infelizmente sei bem o que isso é e sem dúvida que é um nó no peito do tamanho do mundo.
Força querida *