sábado, 28 de março de 2015

Cursed


É bom sentir emoções fortes e senti-lo mais que os outros. É bom ficar feliz com pouco e sentir tanto as pequenas coisas. É bom valorizar tanto os pequenos gestos e as lembranças, as intenções, as atitudes simbólicas... É bom sentir tudo tão profundamente, mas tem dois lados maus, muito maus, que talvez não compensem o lado positivo de ser facilmente feliz.
Sentir tudo tão a fundo não me permite escolher sentimentos, aplica-se ao bom e ao mau. Se vivo tanto as emoções positivas, então pode-se imaginar como me abalam os momentos negativos. Não que eu não os saiba superar ou viva demasiado as más notícias, porque até sou boa resolvedora de assuntos (ou não tivesse eu umas belas histórias para contar desde há mais de dez anos), mas infelizmente sofro muito por antecipação e também sinto muito as histórias negativas, mesmo que sejam as dos outros. Até a ver um filme eu me envolvo demasiado na história, por mais que o meu lado super racional saiba que é tudo ficção. No mínimo, fico a questionar tudo com muito pouco, isso leva a melancolia, e toda a gente sabe que a melancolia, quando não é um momento individual feliz e passageiro, é um estado depressivo. Mas isso não é assunto para desenvolver agora...

Falta o segundo lado mau, que para quem não o vive até pode parecer bom: a euforia. O outro problema de viver tudo tão intensamente deve-se ao estado de euforia em que entro tão facilmente. Talvez por nunca ter tido nada antes, tudo o que consigo por mim própria me deixa num estado de anestesia, fora da realidade e de difícil controlo. Fico para lá de feliz, é um estado de emoção forte permanente que até me impede de pensar com clareza e muito menos com calma. É um estado emocional que me desgasta por completo, muito mais do que quando estou preocupada ou triste. A emoção e a expectativa deixam-me os sentimentos ao rubro, o cérebro em alerta e a respiração quase que suspensa. A adrenalina impõe-se e nem para dormir dá tréguas. Passo más noites durante dias a fio, acordo exausta em cada um deles. A euforia vai-se embora, mas fica uma valente dor de garganta acompanhada de mal-estar... Isto pode durar dias e por vezes fico mesmo doente a sério. É esse o caso atual, e porque num dia de praia estou a escrever do meu sofá com uma manta pelas pernas, lembrei-me de partilhar a minha história.




As emoções intrometem-se na minha vida desde que me lembro. As fotos registam-no: em todos os momentos importantes da minha vida em criança eu estava doente. Não porque estava nervosa para eles, mas porque os ansiava tanto! A ansiedade pelos dias felizes matava-me. Normalmente eram os dias em família, os que mais ansiava, que me deixavam de cama. O Natal, ano após ano, era passado com febre, só por ser o meu dia favorito no ano. As minhas atuações da catequese, os meus aniversários, a minha primeira comunhão, visitas de estudo... Tudo servia para eu adoecer, eu ficava demasiado entusiasmada! E aparentemente nada mudou. Mas se em criança eu era repetidamente ralhada por cada amigdalite que tinha ("Belicious, foi daquele dia em que eu te mandei pôr o chapéu na cabeça e tu não me obedeceste!!!"), agora em adulta tornou-se tudo mais óbvio. Como é que ninguém notou isto antes?! Mais uma vez, a confirmação de que na minha família sempre estiveram muito mais concentrados nos próprios umbigos.

Gostar demasiado do mundo e ser uma eterna apaixonada pela vida, ter emoções em relação a tudo o que mexe (e ao que não mexe), ser inspirada por tantos insignificantes fatores, ter demasiadas aspirações e ambições... Apesar de parecer tudo tão positivo e feliz, acaba por ser algo que se transforma num monstro emocional que me assusta porque se vira mesmo contra mim! Poderá um dia ser algo positivo quando conseguir equilibrar a minha vida, mas por agora, num momento em que não vejo um único pôr-do-sol por ano - e que se acontecesse era motivo para ficar de cama a seguir, já que correntemente choro com tudo, muito bom ou muito mau -, qualquer boa notícia me deixa em euforia. E eu não durmo. E a seguir fico doente. A seguir fico de rastos com a frustração de estar doente. Quando volto ao ativo vou com uma sede de me vingar do tempo perdido que essa falsa energia me deixa rapidamente exausta de novo! Conclusão? É melhor eu ganhar juízo antes que esta brincadeira me saia bem mais cara do que uma dúzia de amigdalites por ano (uma por mês parece-me uma ótima média para alguém quase sem vida própria). Mas o melhor mesmo seria eu voltar a ter uma vida minimamente normal e não ficar eufórica quando recebo um recado num papel ou as boas notícias das vidas das minhas amigas. Está quase, Belicious, está quase, e poderás ter tudo muito mais controlado. Dentro dos possíveis.

1 comentário:

Green disse...

Não desistas de ti, luta sempre pelo que te faz bem e feliz, e não vivas tanto a vida dos outros, começa a viver a tua :)