sábado, 4 de outubro de 2014

Ambições Trocadas

Ontem fiquei um bocado incrédula quando no jornal da hora de almoço dedicaram um bom espaço de tempo ao tema do grande jackpot do euromilhões. Mas não no sentido normal, de noticiar os cem milhões pontuais desta semana. Foi uma espécie de reportagem dramática onde escolheram alguns protagonistas, infelizes, já com as suas idades e sonhos por cumprir. Uma queria desde os onze anos cantar o fado, outro queria sei lá o quê. Coitados, só lhes faltava o euromilhões para serem o que queriam na vida e o lema da história era que se ao menos lhes calhasse o prémio eles poderiam ser felizes. E que enquanto houver euromilhões todas as semanas, haverá esperança. A sério que eu devo ter ficado literalmente de boca aberta enquanto assistia a isto.
Então agora é este tipo de mensagem que se passa à população? É esta a cultura que queremos alimentar? De basear os nossos desejos e sucessos na sorte e numa probabilidade aleatória (e mínima)? Se não os alcançamos, a culpa é do azar? Eu já reparava há muito tempo que, cada vez mais, quem não soma consquistas na vida atribui sempre as culpas ao azar e inveja de morte quem alcança sucessos, mas não estava ciente de que já eram os próprios telejornais que nos ensinavam a fazê-lo. Alimentar uma cultura deste tipo é simplesmente encaminhar-nos para o abismo.

Há mais de uma semana lia algures numa revista os resultados de alguns estudos sobre este tema. Concordei com cada palavra dos resultados descritos e pensei que a nossa cultura de coitadismo tem muitas mais origens que as que podemos imaginar. Sabe-se então que o tipo de pessoas que apostam regularmente em jogos de azar têm um perfil comum, de "achar que merecem a sorte" e de depositarem as suas esperanças de grandes conquistas nesse golpe de sorte aleatório. São pessoas que procuram obter um enorme retorno correndo um risco baixíssimo - e aparentemente não sabem que isso é praticamente impossível - e colocam mesmo as suas esperanças e sonhos de vida nesta probabilidade nula. Acho que nos estudos, resumidamente, explicavam por palavras subtis que as pessoas que investem em jogos de azar são pobres de espírito, de fraca mente e com ambições subjetivas. Geralmente, são as pessoas mais pobres que alinham nestes hábitos. Não será paradoxal?
No próprio cristianismo é proibido avançar para este tipo de coisas - jogos de azar. A religião não pode compreender como alguém pode subestimar o trabalho para “arriscar o seu dinheiro na tentativa de multiplicá-lo em algo que é contra as probabilidades”. Na bíblia pode mesmo ler-se sobre o insulto que é esbanjar o precioso dinheiro que provém do trabalho (o que é algo de verdadeiro valor, especialmente hoje em dia) em algo aleatório: Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor naquilo que não podeis satisfazer?
A isto chama-se cair em tentação. E com um verdadeiro fundo de razão. Porque raio gastam as pessoas o pouco dinheiro que têm e que seria muito mais útil se fosse poupado, que em anos daria para construir algo, e o deixam ao sabor da sorte, para a seguir se chatearem e meterem as culpas no azar? E a seguir ainda conseguem dizer que não têm nada? A resposta está demasiado fácil de obter nos dias de hoje: todos querem os seus desejos cumpridos no imediato, ninguém quer esperar para construir, têm sede de ter e é para hoje, o futuro demora muito tempo. Não pensaram nisso com tempo, não traçaram um plano para o que queriam obter, e agora querem tudo para ontem. Isto é nos jogos e em tudo no mundo atual.
Vi esta semana na papelaria uma senhora a "papar" tudo o que era apostas. Preencheu 60€ de euromilhões e mais um tanto de totoloto, perguntou quais eram as raspadinhas do dia, pediu 5 para fazer ali e mais 5 para levar, e no fim perguntou pelas lotarias. Quis saber quanto era cada uma (10€) e disse que levava 5 dessas. Eu pensei para mim na altura quanto é que pouparia esta senhora por ano se guardasse no mealheiro este investimento todas as semanas e tudo o que poderia obter com essa poupança.

A resposta para estes fenómenos está no dinheiro fácil, nos desejos materiais e no sucesso pelo contorno do trabalho. Mas será que alguém se ia sentir realizado e com uma grande conquista por ganhar este prémio? A maior parte dos premiados sentem um vazio tão grande (depois da euforia) que acabam doentes e com muito menos dinheiro do que antes do prémio!
Hoje a tentação é grande, a sedução pelo mundo de aparências e a ganância justificam o desejo ardente por estes prémios e a esperança tão parva, tão triste, de fazer a vida através desta sorte.
Se já na bíblia se lia que "a fazenda que procede da vaidade diminuirá, mas quem a ajunta pelo trabalho terá aumento", será muito difícil ver as coisas com clareza?
Numa sociedade completamente iludida pelas aparências, tudo está espelhado pelas atitudes predominantes: a corrida à fama fácil pela Casa dos Segredos e concursos de música; a tentativa forçada de se ficar conhecido pelos meios mais fáceis como os blogues, canais de youtube, instagram; a tentativa forçada de ter ideias de negócio para forjar empresas, levá-las a concurso, ganhar prémios e fingir o sucesso sem sequer começar a ter o verdadeiro trabalho de implementá-la; a corrida aos boletins de apostas para fazer fortuna rapidamente, contornando todo o trabalho de construção do dia a dia.

Esta mentalidade entristece-me e é predominante na cultura ocidental, mas sobretudo em Portugal. A nossa falta de atitude para o que realmente importa é preocupante. A quantidade de energia que deviamos aplicar em trabalho e evolução é aquela que depositamos com toda a força a reclamar do que não temos e do que os outros não fazem por nós. Esta nossa cultura do coitadismo é irrefutável, está enraizada, os pais passam esta mensagem aos filhos, e ela está também espelhada nas nossas casas de apostas! Somos o país com maior valor gasto em jogos de azar em toda a Europa - e somos dos países mais pequenos também! E supostamente a atravessar uma grande crise económica. A lógica disto?! Bem, ela não existe, isto é totalmente paradoxal. Quanto ao jogo, podem continuar a fazer grandes apostas porque eu não me incomodo - só não compreendo se depositarem aí as esperanças de uma vida melhor. Mas, por amor de Deus, não roguem pragas ao mundo, não fiquem transtornados e muito menos digam que não têm sorte na vida sempre que não ganharem prémios. Porque isso são extras na vida e não naquilo em que ela se deve basear. Pelo menos por enquanto.

1 comentário:

Anónimo disse...

Tens no máximo 20% de razão. Isto por causa dos pobrezinhos e velhinhos que deviam gastar o dinheiro em comida em vez de no euromilhões.
O resto daquilo que dizes é caca.

Pensa assim: tens 45 anos, 3 filhos e um marido que ganha pouco mais que o salário mínimo. A tua situação financeira é estável, mas não tens luxos. A tua formação é baixa, não tiveste oportunidades.
Qual é a única forma que tens de ficares rica? Pois, o euromilhões. Sim, as hipóteses são 1/1000000000. Mas há quem ganhe.

A hipótese de ganhar um prémio destes também permite às pessoas sonhar. E sonhar é tão bom! 4 euros por semana (ou 2 euros de vez em quando se só apostares em prémios elevados) permitem-te sonhar.

Nem toda a gente é coitadinha, nem todos nasceram para serem empreendedores.
Uma grande vida não está ao alcance de todos. Há um sistema em pirâmide que impede que todos se tornem ricos. Por cada 1 que seja rico, 20 ou mais têm que ser pobres.

A mim parece-me que invejas essas pessoas. Teces muitas críticas, do alto do teu pedestal, mas não te importavas de chegar "à fama fácil".

O tempo que perdes a escrever no blog podia ser canalizado de outras formas, tais como trabalhar.

Gastei 10 minutos do meu tempo a ler outros posts que escreveste. Basicamente não tens problemas. Tens uma vida fácil. Aquilo que consideras problemas são futilidades.

Quando evoluires terás sucesso. Escreves bem, o conteúdo é que é fraco.

Agora vou eu trabalhar, que não posso apostar todas as fichas no euromilhões.