terça-feira, 26 de novembro de 2013

As piores fases da vida, e recordar a pior fase da minha

Foi ao ver esta avó tão triste e aflita, esta manhã nos programas da manhã (que meto a dar enquanto trabalho em casa) que revivi alguns episódios da minha adolescência. Esta avó não sabia mais o que fazer para ajudar a neta, que com os dentes decadentes, feios, partidos e já quase totalmente desdentada à frente, não conseguia sair de casa. A neta de 17 anos deixou de ir à escola porque não conseguia enfrentar os colegas com aquele sorriso (quem sabe o que era gozada pela boca que tinha?) e além de deixar a escola passou todo o verão fechada em casa, sem conseguir sair ou conviver por causa da vergonha da própria boca. A avó estava desesperada porque não aguentava ver a neta a não viver a sua vida, a privar-se de tudo o que é próprio da idade por não se sentir bem consigo. Apesar das doenças e da idade, tinha passado os últimos tempos a ir a pé às instituições, à câmara municipal, às revistas, aos programas de televisão, a pedir ajuda para poder pagar umas próteses dentárias à neta, mas nada, até aparecer o Goucha e seu programa, que levaram a rapariga às clínicas do costume fazer implantes em toda a boca, com um final muito feliz.

Ora o meu caso... Bem, eu na minha adolescência tinha (e tenho, atenção) dentes, não tinha problemas, tinha tudo mais ou menos no sítio, mas achava-me gorda. Tremendamente gorda e um bocado feia. Quanto mais os anos passavam, mais diminuía a minha autoestima. Comecei a esconder-me na roupa, a ter menos vontade de sair com quem quer que fosse, a deixar de comer sem ninguém perceber, a sentir-me desconfortável comigo em todas as situações desta vida. Quanto mais drásticas se tornavam estas medidas (houve um largo período em que ficava em jejum até ao jantar, refeição a que não podia escapar porque a tomava em família), mais eu começava de facto a engordar, e a desesperar, porque os meus métodos desesperados estavam a ter o efeito contrário. Já não queria comprar roupas, não queria conhecer pessoas porque achava que ia ser uma desilusão, deixei de ir definivamente à praia. Quanto mais deixava de fazer estas coisas tão normais, mais dificilmente me imaginava a vir a retomar uma vida normal, estava desesperada a ver uma situação sem retorno, e uma situação que me fazia tão, mas tão infeliz. Isto durou anos, durou toda a minha adolescência, sem verões, sem biquinis, sem namoricos, sem as aventuras maravilhosas que via os meus amigos viver férias após férias, todos juntos. Foi terrível, anos de choro e infelicidade pura, isolamento e solidão. Perguntava-me como os meus pais podiam não ajudar-me, estando eu tão desesperada, mas numa certa altura comecei a achar que seria normal. Agora olho para trás e não, não era normal. Eu sofri em silêncio, passei anos sozinha, estava revoltada e em casa, estava em agonia. Eu abdiquei da minha vida até aos 19 anos de idade.

Eu não era gorda, coisa nenhuma. Era uma magra e bem feita que começou a ver uns pontinhos de celulite com a entrada na adolescência, entrou em pânico e ninguém soube tranquilizá-la, ninguém, até que tudo teve um efeito bola de neve. Refugiei-me nas notas da escola, a única coisa que não necessitava de exposição pública ou autoestima. Mesmo assim, não me apetecia nem tinha forças para estudar (não comer não ajudava). Nas aulas também não queria falar, e os professores chamavam os meus pais para lhes dizer que não me dariam as notas que eu merecia porque eu não participava, e a participação nas aulas também faz parte da nota final. Nunca hei-de esquecer esta porcaria de método. Adiante.
Os meus pais não foram ao fundo da questão, para eles eu era envergonhada, só porque eles o são. Para eles eu não ia à praia porque estava a ter uma pancada de adolescente, que coisa tão normal, uma rapariga ficar em casa, no escuro e de roupa (calças) durante uns seis verões seguidos. Note-se que até aos vinte anos vivi a 5 minutos da praia, sou de lá, e ninguém que more ali passa um dia sem a praia e sem os amigos. Isto agrava as coisas? Não podem imaginar o quanto, o ridículo que foi, os momentos felizes que perdi, a infelicidade que nos consome e nos suga a alma e as forças e apesar disso não conseguirmos sair daquilo, é uma prisão inexplicável. E mesmo assim, nunca ninguém me soube dizer-me és bonita ou preocupar-se devidamente com o que eu estava a enfrentar sozinha.

Aqui entra finalmente a minha avó. A única pessoa que se esforçou realmente por me mostrar como eu estava errada. A única que se afligia muito com o que eu estava a fazer a mim própria. A única que sabia o que eu estava a perder, do que estava a abdicar e dos anos que estava a perder e que não voltariam. Nunca voltaram, nunca vão voltar... Mas naquela altura eu não conseguia perceber isso, estava a sofrer, a sofrer, não conseguia libertar-me daquilo... Estava cada vez mais desesperada, e via a minha avó a ficar também e a sofrer por mim. Ela não tem dinheiro, mas começou a juntar para eu ir para um ginásio local. Pedia às minhas primas mais velhas para me ajudarem e me tirarem de casa. Empurrava-me para sair à noite com as minhas amigas e eu ia, e fazia-me tão bem, ganhava anos de vida à noite. Explicava-me como aquilo era uma fase e como as minhas amigas não eram melhores que eu. Explicava-me como eu era mil vezes mais bonita que as minhas amigas, e como era inteligente. Basicamente, provava a cada dia todo o amor que tinha por mim e vou agradecer-lhe para sempre os ensinamentos que guardei.

Já agora, e só por curiosidade, conto o ponto de viragem desta história.
Certo dia, na escola secundária, parou à porta o carro da Elite Model Look, agência de modelos que estava a fazer recrutamento de novos talentos em todas as escolas do país. Eu sabia disso perfeitamente, na altura já tinha uma obsessão por moda e nessa idade tinha sobretudo por modelos e sonhava ser modelo. Já comprava revistas de moda, via sites de modelos, acompanhava os concursos. Eu era das únicas raparigas da escola com altura suficiente (mais que suficiente) para ser recrutada e eles passaram por mim e nem olharam. Claro que não, eu tinha engordado, tinha roupas feias, óculos, um ar de quem tinha desistido de si própria. E tinha. Naquele momento chorei no meio da escola, estava infeliz e vazia por dentro, a olhar para trás e a perceber que se não fosse a minha parvoíce durante esses anos todos eu não tinha engordado e continuava magra como no início da minha crise (SIM porque inconscientemente eu sempre soube que era magra, tal como as anoréticas se veem ao espelho em pele e osso mas continuam a achar-se gordas(?)... simplesmente não há uma explicação). Eu aí não era gorda, mas já não tinha com certeza as medidas para ser modelo. Nesse dia não fui mais às aulas, saí da escola para o autocarro e ir para casa. Quando vi o carro da agência à porta da escola, tão lindo e a representar o passaporte para um mundo novo (a moda), chorei e chorei ainda mais, até chegar a casa. Cheguei num pranto, a minha mãe ficou preocupada e tão triste por mim. Não sei se foi por pena, mas nesse dia ficou decidida a levar-me a um nutricionista e foi essa a viragem. Não uma viragem de peso, porque só perdi os 5kg que tinha a mais, mas a mudança mental. Aos poucos, e com muito esforço, consegui superar-me até ao que sou hoje, uma pessoa quase normal (tenho algumas reservas ainda em relação a estar de biquini, mesmo com as medidas da Cláudia Vieira).
Aprendi muito sobre mim, sobre a adolescência, sobre como lidar com os filhos que venha a ter, aprendi quem gostava de mim de verdade, os amigos que se esforçaram por me ajudar e os que se afastaram. Aprendi que às vezes se passa por fases difíceis e impossíveis de explicar e incompreensíveis pelos outros, mas elas existem. E alguém está a perder a vida por isso.
Hoje fiquei contente por ver alguém a dar de volta a vida àquela rapariga que não tinha dentes, e sobretudo a tirar o aperto do peito daquela avó que já só chorava. Mas não deixo de pensar onde raio estavam os pais daquela rapariga. Ou onde estiveram os meus naqueles anos todos...

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