domingo, 6 de outubro de 2013

Movin' on - Report of one heart

Fiz as pazes com o outono. Fez quinta-feira uma semana que saímos para respirar (comemorar) o fim da tese, eu e a minha irmã. Estávamos sedentas de ar, vento, rua. Só entregámos tudo na sexta-feira, quando nos chegou autorização para isso, e no fim dessas horas de espera não podíamos acreditar que tínhamos encerrado aquele capítulo. Tantas vezes que me pareceu que esse dia não ia mais chegar, que era irrealista terminar dentro do prazo, que seria impossível entregar um trabalho com qualidade. Ambas conseguimos superar mais esta fase complicada, chegar ao fim e de forma tão repentina que nem no fim acreditámos. Mal deu para sentir a liberdade que imaginei porque acho que não acreditava que já estava tudo resolvido. Bem, na verdade não deu para sentir liberdade alguma porque no dia seguinte voltávamos ao trabalho. Voltámos da faculdade completamente partidas, depois de uma maratona de trabalho de meses, dos muitos obstáculos que apanhei no percurso, e de um dia derradeiro de entrega, e quando cheguei a casa já só podia pensar em estudar a melhor forma de descansar nas horas que me restavam antes de voltar ao trabalho, logo no dia seguinte. Tudo o que tinha imaginado de celebração para esse dia (ou essa noite) estava desde logo condenado. Como tudo, ficou adiado até sempre.

Nestes dias da entrega foi a transformação do clima. Passámos repentinamente do verão para o outono. Eu passei da tese para o trabalho. Foi uma sensação terrível a de entregar a minha dissertação num momento em que terminava qualquer réstia de sol e bom tempo e não dava mais para voltar atrás a aproveitar os amados dias de verão. Mais triste é pensar que se houvesse sol, não haveria tempo, a não ser os eventuais fins de tarde. Não tive quaisquer férias durante todos estes meses (e anos). Tenho-as em espera, ainda, e continuo a não vislumbrar qualquer cenário de fuga. Nos entretantos, vou andando doente. O meu corpo não compreende porque não lhe dou descanso. Ele dá-me sinais, eu assobio para o lado. Eu choro, eu sofro, eu recomponho-me e esforço-me e vou (sobre)vivendo e é este o ciclo. Felizmente está a fechar-se, ou mudarei de vida, antes que perca aquilo que ainda resta de mim.

Nesse sábado ia ter aquilo que mais se aproxima de uma experiência romântica de verão. Estava excitadíssima, até fiz um post sobre isso, mas como sempre a saída estava condenada. Como sempre, nenhum de nós dois ia ficar bem com isso - ele porque ia ser arrancado do trabalho só porque eu inventei uma saída e eu porque ia ficar a sentir-me mal, como sempre, por ter inventado uma saída. Não criava uma há meses. Quase desde o início do ano que decidi para mim mesma que não teria mais iniciativas de arranjar pequenos momentos, por mais insignificantes que possam parecer. Preferia que tudo ficasse resolvido primeiro, e viveríamos depois. Mas passou-se um mês e outro e outro e passou-se o ano, e passou-se o verão, e passaram-se todas as oportunidades, todos os vouchers, todos os momentos que fiquei a pensar, sempre e em cada um "a este podíamos ir" e ficava sempre "compro-não compro-compro-não compro-compro-não compro", às vezes durante dias, e nunca comprava. Nunca. Estes simples cocktails, com prazo de 3 meses (3 meses) eram uma forma tão simples de irmos até à praia num final de tarde. Nunca pensei que nem fossemos à praia antes disso, a completar mais um verão nessa (ir)realidade. Muito menos me passaria pela cabeça que não iríamos sequer dessa vez, ao fim do dia.
Neste sábado de chuva, então, lá íamos forçados pelo fim do prazo do voucher atender a esse pequeno escape. Já se sentia no ar o peso de ter de ir fazer essa pausa no trabalho. Já estava eu com todo o peso nos ombros de estar a estragar tudo com uma simples visita à praia, tão simples e tão merecida, porque todos os dias e semanas e meses são uma má altura - e eu uma má pessoa. Perguntei a uma amiga se podia ir por mim nesse dia e ela, feliz, aceitou. Esse foi o único final feliz que consegui arranjar para o meu humilde voucher, tão simples aparentemente, mas na nossa vida nem para as coisas simples há espaço. No entanto, nessa noite ela mandou-me sms a dizer que tinham passado a oferta. "obrigada por te teres lembrado de nós", disse ela. O final minimamente feliz que arranjei, a mandar areia para os meus próprios olhos, caiu completamente por terra naquele momento. O meu coração caiu ali também e um episódio tão simples deixou-me tão frágil, tão triste. Enfiei-me na cama durante duas horas sem conseguir sair de lá. Tinha acabado de abrir mão do único momento romântico de praia que ia ter durante todo o ano de 2013. E num dia de chuva, e saídos do trabalho em pleno sábado, mas para mim era tão precioso. Ninguém imagina o que sinto neste momento com a tremenda falta de tudo o que não vivi nestes meses, da praia que não tive nestes anos todos de namoro, das pausas que não fizemos, das aventuras que não tivemos. Nada do que possa vir a acontecer-me na vida vai trazer-me estes verões de volta. Quem fala nos verões, fala no resto. Eu não tenho época de Natal desde os 19 anos, com exames difíceis e decisivos sempre a partir de 2 ou 3 de janeiro, até ao último ano. Foi mais um desperdício inexplicável do melhor que existe na vida. Mas este ano vou ter, aconteça o que acontecer.

Mas o que interessava nesta história era o verão, porque foi mais um que acabei de perder. O último Natal que perdi já foi há 8 meses. Este verão que perdi ainda tem a ferida aberta aqui no coração. Foi por isso que foi tão importante fazer, nessa quinta-feira com a minha irmã, as pazes com o outono. É uma metáfora, claro, porque o que consegui nesse momento foi fazer as pazes com o meu interior. Estava completamente transtornada pelo fim do verão nesses dias, por tê-lo visto dizer adeus nos dias em que finalmente me libertava e não voltar mais, e ter deixado uns quantos pequenos sonhos pelo caminho. Mais uma vez. Tinha tantos sonhos para este verão... Ia compensar todos os que não tinha vivido. Afinal, fiquei sem mais um. Jamais me poderia passar tal coisa pela cabeça.
Os dias de outono já tinham entretanto chegado no seu esplendor e eu, que noutros anos me maravilhava com esta chegada, este ano recusava-me a ver essa beleza. Estava completamente revoltada com a realidade, era muito cruel. Nesse dia, em que fui andar pelo parque e senti finalmente o vento na cara, depois de meses tão fechada em casa, foi como que uma limpeza da mente. Andei pelo parque, refresquei as ideias, depois convivemos um bocadinho. No fim vim ainda mais devagarinho para casa e foi muito bom ver tanto verde, o rio, as pessoas a correr e a caminhar, a passear com os bebés, com os cães, com as pessoas amadas, a ser felizes. Ganhei uma nova esperança com o cheiro a terra molhada desses dias e com a chuva que veio tornar mais intimista a minha casa e mais calmo o meu pensamento. Aceitei o outono e aceitei que iria começar a partir de aí... Cheguei a casa, fiz um chá quente de frutos vermelhos que acompanhei com broa de milho, de janela aberta a ver chover com tanta força que o barulho abafou os gritos dos meus pensamentos. Acalmei e nos dias seguintes estava serena... Nos dias seguintes fiquei cada vez mais feliz pelo clima acolhedor do outono, fiz um bolo mais uma vez ao som da chuva, entrei em outubro, fiz planos para esta estação e tenho já mil ideias para concretizar neste Natal. Quero fazer da vida aquilo que ela merece - um percurso cheio de bons momentos e atenção dedicada ao que é importante e ao que queremos preservar nesse percurso. Pessoas em vez de bens, qualidade de vida e momentos só para nós. Acima de tudo, ter equilíbrio, que é tudo o que não existe por aqui. Neste momento, mudar é urgente. E eu já não vou gastar nem mais um precioso dia da minha vida para ficar a ver o que acontece.

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