sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Sobre a persistência

Não se trata de insistir, trata-se de não desistir. Ainda na semana passada tinha um presente de Natal (que ofereci) para trocar, mas já bem fora dos trinta dias porque durante os exames não tive tempo. Arriscava-me a ficar com aquela camisa de tamanho errado nas mãos e ter de pensar uma saída para aquilo. No dia seguinte à minha última entrega de trabalhos lá decidi ir tentar a minha sorte e espreitar os saldos. Claro que praticamente não tinha hipóteses de conseguir a troca, claro que era mais fácil ir de mãos livres para o shopping, pensar "para que vou levar isto? já passaram quarenta dias, ninguém me vai dar hipótese e só vou andar com peso atrás a tarde inteira" mas peguei nos sacos e fui. E fiz a troca. Nesse dia pensei para mim mil situações parecidas e pensei que não consigo enquadrar ninguém nelas, ninguém que as faça. Nessa tarde troquei também uma t-shirt que tinha comprado nos saldos e me tinha arrependido, completamente fora do prazo que me tinham indicado, mas fui simpática para a senhora, ela chamou a gerente, fez-me uma "grande excepção!", troquei por duas t-shirts que adoro e ainda me devolveram dinheiro. Voltei para casa feliz.

Há dias liguei para as assinaturas de uma revista. Tinham há duas edições atrás como prémio de assinatura um produto que eu ia mesmo comprar nessa semana. Em vez de gastar os cento e tal euros decidi que ia assinar a revista (que gosto muito) e receber aquele prémio. Mas meteu-se o Natal, nunca mais liguei e já houve duas edições novas depois daquela revista onde estava o meu prémio. Quais eram as minhas hipóteses de conseguir assinar a revista e ganhar o meu produto? Ou melhor, se calhar até existiam hipóteses, mas ligar duas edições depois? Era tão mais fácil pensar que já passou imenso tempo, agora é impossível, nem vale a pena tentar, não vou telefonar para lá. E o assunto encerrava-se em segundos. Eu liguei, já assinei e na próxima semana recebo o meu produto na mais sofisticada das versões - eu ia comprar uma mais acessível.

A persistência é algo que não me falta desde sempre. Vejo por toda a parte o típico encolher de ombros e penso para mim "bolas, eu não sou assim". Desistir é sempre a saída mais fácil, meter as culpas para os outros é melhor ainda. Tão simples que é, uma solução de segundos. Viver com a desculpa do "aquela pessoa prometeu-me, então vou fazer conta com isso" e no fim não se realizar e culpar o outro, isso é merda. Só podemos contar connosco. E se contarmos com outros, é sermos adultos e assumir o risco, assumir a nossa culpa no fim. Se queremos algo, é ir atrás e não arranjar desculpas para nós próprios do "não dá", "é difícil", "agora não dá jeito", "não ia funcionar" quando na realidade até ia, mas era muito mais difícil tentar do que desistir. Essas pessoas vão levar com muitas desilusões pela vida fora e nunca vão perceber que afinal a culpa foi sempre delas. É uma vida de ilusão para que tudo seja sempre mais fácil - e sem culpas, a culpa é dos outros, a culpa é do mundo.

Não vou ser moralista e dizer que para mim cada faz como quiser que não me importa, porque não me é tão indiferente assim, vejo-me muitas vezes a empurrar gente que sem empurrões estaria estagnada e a meter culpas para todo o lado, e isso faz-me um pouco de comichão. Mas sinceramente na maior parte das vezes já ignoro a comichão de tudo aquilo que os outros desistem, de tudo o que não são, do que não vão ser, e de todas as desculpas que dão todos os dias, porque me concentro cada vez mais só nas minhas decisões, sempre ponderadas pelo melhor e com atitude. E é aí que reside toda a explicação da persistência: é fácil não a ter e ser um fraco, porque se desistir nunca ninguém vai saber; é difícil ter força e persistir porque se eu conseguir, nunca ninguém vai saber também - e hoje em dia aquilo que não se pode mostrar aos outros não tem valor. O que essas pessoas não sabem é o sabor destas vitórias pessoais diariamente. E a forma como elas se transformam aos poucos num futuro diferente do comum.

1 comentário:

Nel, the vet disse...

Tão tão verdade. Tantas vezes que me esqueço de quem sou e me acomodo momentaneamente às coisas a que não devia acomodar-me... E aí pimbas, dou um empurrão a mim mesma (quando não há ninguém para me empurrar) :)