sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Última aula de uma vida ou como se criam pseudo-mestres actualmente

A aula de ontem não era uma aula qualquer, foi a última deste semestre e do meu mestrado, porque daqui para a frente está cada um por sua conta, cada um com a sua tese até ao último dia. Enquanto todos os meus limitados colegas festejam fervorosamente no Facebook o facto de ser a sua última aula para todo o sempre, eu estou há semanas de olho em dois pequenos cursos, indecisa entre eles, um já em Março e outro mais para o Verão. Qualquer um deles acontece ainda durante o mestrado, e para mim o mais grave disto são mesmo as "propinas simultâneas", que são um impedimento dos grandes, numa soma de milhares com mais milhares de euros. De resto, não vejo como pode ser possível não querer estudar mais no resto de uma vida. Que estou farta de ser estudante no verdadeiro sentido académico, claro que estou. É uma vida inteira dedicada aos estudos, à vida regrada de escola e às fases de exames que nos esgotam. Mas há quem passe por esses anos e os viva como um castigo e depois há quem tire partido deles. Tudo o que aprendi nesta vida (tiremos a disciplina História desta bonita descrição, vá) ainda sei, ainda posso reproduzir e posso até ensinar. Porque, e volto a dizer, aprendi, eu nunca decorei. Nunca cabulei, nunca copiei. Não por regra ou para provar o que quer que fosse. Foi sempre porque achei que ganharia mais se aprendesse. E quando se aprende é tudo extremamente interessante, juro. Até estatística ou a economia política mais rebuscada, para quem duvida. Mas decorando... Decorando é tudo um castigo, tudo sem sentido e "uma seca" que não compensa.

Inocentemente, pensei que toda a gente era interessada também, que existiam pessoas inteligentes à minha volta. Por pessoas inteligentes defino também as pessoas que procuram inteligência. Hoje procuro-as eu. Quase desesperadamente! Sem sucesso, é tão triste. Mas pessoas a tentar mostrar-se inteligentes? Ei-las em todo todo, mas todo todo todo o santo lado.

Inocentemente, sempre pensei que fosse natural o pensamento de aprendizagem ao longo da vida. Achava que não era só eu, toda a gente seria interessada. O quê? O pessoal só aprende o que for obrigado a aprender. Pior, nem isso, porque se recusam a aprender, "isso é para os tolos", devem eles pensar.
Nem agora num mestrado, um curso completamente voluntário, onde só se inscrevem os realmente interessados, até porque é caríssimo, os meus colegas se dignam a aprender. Estão ali para ir a umas festas, dizer umas frases feitas nas aulas e combinar esquemas de copiar nos exames (é o que dá terem os paizinhos a pagar um curso deste calibre!). Tiram o suficiente para passar e 'bora lá festejar o fim disto tudo que já tenho mais um título a provar a minha extrema inteligência. Chamem-me de mestre, se faz favor. E assim saem todos os anos fornadas de pseudo-mestres que nada sabem sobre nada, não têm cultura e muito menos conhecimento da área em que se formaram. Têm menos cultura que a minha avó, que nunca foi à escola, nem aprendeu a escrever. Mas que passou toda a vida a querer aprender. Quem é mais inteligente, afinal? Qualquer destas pessoas com licenciatura e mestrado na mão depois de anos a fazer exames num esquema de decorar-esquecer? Ou a minha avó, que aprendeu a ler em casa por favor e toda a vida teve sede de aprender, se cultivou e hoje domina no que respeita a história, cultura, política, saúde, dinheiro, sociedade, actualidade? Garanto-vos que a minha avó é mais inteligente que qualquer um de cerca de 90% dos "mestres" que temos por aí.

Eu fico triste e revoltada com este panorama, pois fico, porque vivo-o no dia-a-dia, mas aprendi que cada um trabalha a sua vida com as ferramentas que tem. E as minhas às vezes são tantas que não sei por que caminhos me aventurar, e todos os dias procuro orientação para isso. Diz o autor que estou a ler, uma das mentes mais geniais do mundo, que a diferença está mesmo em quem procura o conhecimento continuado, e para além de querer aprender todos os dias, é praticar o pensamento multiangular, não ver tudo preto no branco, é olhar de todas as perspectivas e saber duvidar, criticar, criar novas teorias. E isto diz-me tanto, mas tanto... Todos os dias aprendo e procuro aprender, dentro e fora da minha área de formação. Cultivo-me sobre saúde, design, cultura, economia, línguas, informática, estratégia ou psicologia. E assim vai ser toda a minha vida, disso tenho a certeza. Disso e da diferença que será cada vez maior entre a minha vida e a vida dos outros.

3 comentários:

miii disse...

Adorei este texto! Diz tudo e espero nunca perder a vontade de aprender!*

S disse...

É verdade sempre reparei nisso a vida toda, as pessoas decoram e depois debitam palavras, mais nada! O sentido do que debitam desconhecem é por isso que há tão maus profissionais por aí em todas as áreas! É raríssimo que uma pessoa saiba realmente o que está a dizer! É ridiculo!
Bj S

Anónimo disse...

Aprender até morrer mas não necessariamente e sempre em escola de propinas.