sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Para marcar este dia








O assunto já não está fresquinho, mas nem que tivessem passado semanas eu tinha de me pronunciar. Foi há dois dias a greve geral e toda a gente sabe no que deu, eu sei especialmente porque acabei por presenciar aquilo quando nunca devia ter saído de casa.
Ao fim da tarde peguei no carro a caminho das aulas, sem vontadinha nenhuma mas fui. Estacionei, como habitualmente, no fim da Avenida D. Carlos I (no início da avenida fica a assembleia e o palco de tudo o que é estupidez) e na minha inocência quis subir a rua para ir até à faculdade. Já tinha dito à S. antes para não fazer o trajecto do costume até às aulas, porque passaria pelo meio da confusão e eu tinha ouvido no carro que estava cada vez mais agressivo, só não sabia o quanto. Assim que comecei a caminhar vi gente a correr na direcção oposta, a descer a avenida. Estavam com ar de loucos e não percebi nada do que se passava - as manifestações costumavam ser sempre só lá em cima! Depois, ao ver a avenida cheia de gente parada a olhar para as estradas e para o que acontecia é que fui percebendo que as coisas não estavam nada bem. O resto não consigo descrever, um ambiente de medo, negro, mudo, onde as pessoas "normais" (as que estavam ali por acidente, tal como eu) observavam a correria e histerismo de quem não teve mais nada para fazer naquele dia. Tentei avançar mais um pouco na avenida, já que estava a ficar atrasada, e levei o meu quinto ou sexto encosto de gente bruta que andava a correr. Mais um encosto mudo, mas desta vez de um gajo encarapuçado, de cara totalmente tapada e rodeado dos companheiros de crime. Eram uns oito, passaram a correr à minha frente, silenciosamente e de plano traçado, e dirigiram-se a um montinho de contentores do lixo que estavam no sítio do costume. Arrastaram-nos todos, dois a dois, para o meio da estrada, ficaram lá de roda a fazer algo que eu não percebia (e até fingia não estar a olhar, tive medo) e fugiram imediatamente dali, deixando aquilo cheio de fumo. Depressa os contentores largaram em chamas no meio do cruzamento de quatro vias com alguns carros, que acabaram por ficar ali imóveis mesmo com o sinal a dar-lhes o verde. Eu depressa deixei de perceber onde estava, as minhas pernas estavam a tremer, eu comecei a chorar, dei a volta e corri para casa.

Bem, tive um caminho inteiro até casa para pensar naquilo, ainda chocada com o pouquinho que vi. Afinal, qual era o propósito daquela gente toda naquele dia? Desde o início que não percebo o movimento "que se lixe a troika", é de uma ignorância tal que me mete os cabelos em pé. Então o dinheiro vem de onde exactamente? Como continuaremos a viver sem troikas e ajudas afinal? A tirar dois dias por mês para ir bater o pé em São Bento é que as nossas vidas não vão melhorar, com certeza. O país bloqueia nesses dias, perde milhões de euros numa só aventura destas. É tudo o que precisamos agora, sem dúvida.

Eu não concordo com manifestações destas à partida (há excepções, mas estas à volta da "crise" já tento nem ouvir falar), mas cada um tem o direito a expressar-se e eu só tive o azar de estudar estes anos todos ao lado do parlamento, quanto a isso nada a fazer, há-que tolerar. No momento em que começo a ouvir falar de derrubar as grades que separam o tolerável do ridículo, quando começam a mandar comida, líquidos e sprays e, quando eu pensava que não podia piorar, ainda ouço que começaram a voar pedras da calçada, então quase não dá para acreditar. Será possível que se atirem pedras do tamanho de uma mão à linha policial que está ali sem fazer mal a ninguém? É difícil perceber que ali estão a atirar pedras a seres humanos? Pessoas com família, que definitivamente estariam melhor em casa, que têm como missão número um proteger-nos de tudo e de todos. Já passou pela cabeça daqueles marginais que também eles, os polícias, estão a sofrer os efeitos da crise? Que gostavam também que nada disto estivesse a acontecer? Mas que raio de objectivo tem esse grupo de ignorantes que atira pedras e mete fogo aos pés da corrente policial (armada até aos dentes, note-se, e com cães bem treinados), é conseguir que se baixem os impostos no minuto a seguir? Esclareçam-me porque me sinto à parte deste (não-)raciocínio. Umas vezes sinto pena, outras vezes só revolta, quando imagino que um totó desses que conseguisse furar a polícia só conseguiria subir as escadas da Assembleia, nada mais, e fazer uma figura patética. Ridículo. Mas a verdade é que ninguém quer furar barreira nenhuma, querem apenas passar um dia de folga naquele circo e com cada tentativa de quebrar a barreira tentar aparecer numa das fotos do dia seguinte.

Não entendo, em primeiro lugar, como pode haver gente assim, tão pobre de espírito, a descarregar os problemas nos seus iguais. Se quisessem apanhar e torturar o Sócrates, isso era diferente. Mas carregar nos polícias? Destruir as ruas? Meu Deus, nas ruas que entraram a destruir só moram velhotes, eu já morei em duas delas, como é possível tanto vandalismo?! Carros incendiados, ecopontos a rebolar pela estrada, montras partidas. É assim que a vida vai melhorar e o país progredir? É assim que a troika já não é necessária? Santa burrice. Eu vi as roupas dos encarapuçados criminosos, não eram mais que uns betinhos totós iguais aos da minha faculdade. Deviam ter um iPhone no bolso enquanto queimam as ruas em nome dos impostos que ainda não pagam. Eu fico indignada por ninguém poder fazer nada em relação a esta gente. Fico revoltada de ver dedos apontados à polícia quando defende a própria vida e, já agora, a ordem pública, para quem ainda não notou. Então se alguém me atirar uma pedra à cabeça na rua e um polícia assistir, eu nao quero que me ajude? Porque haveriam eles de ficar a assistir quando eram os próprios apedrejados? Sou eu que vivo numa realidade paralela ou isto não faz sentido nenhum? Por mim eles até teriam ordem de atirar de volta as pedras que lhes são lançadas.
Fiquei tristíssima nesse dia. Nem fui às minhas aulas e era véspera de teste. Imagino quantas pessoas no dia seguinte se depararam com estragos que impediram as suas vidas também. As pessoas têm de perceber que para serem respeitadas, primeiro têm de se dar ao respeito. E para melhorar as suas vidas, façam o mesmo que eu em dias de "mánif": ficar a trabalhar e a lutar pela vida porque ninguém vai fazê-lo por mim.

3 comentários:

S disse...

As imagens que passaram da manifestação foram de facto muito feias! Obrigada pelo teu comentário, vim retribuir a visita e gostei muito do blog!
Bj S

Maria disse...

Uma tristeza...

Miú Segunda disse...

Deve ter sido assustador! Concordo que os excessos são de evitar a todo o custo... Mas o direito à manifestação pública é próprio da democracia - o que não é próprio é a violênvcia pela violência. Esses deviam ser castigados, e bem.
Agora, ao ser "contra a Troika", acho que o que as pessoas querem é que a TRoika se responsabilize pela quota parte que teve em meter-nos neste buraco! Não é arruinar um país pequeno, impossibilitá-lo de pescar e produzir agricultura, de desenvolver a indústria, e depois vir cobrar-lhe juros altíssimos de dívidas que eles invesntaram para nós!